terça-feira, 9 de outubro de 2007

A CARNE

Você vai ao mercado e compra carne de gado
E te vendem o traseiro do gato e você arremata
Pensando que é capim doce lanhado
E chega em casa com aquilo debaixo do braço
E tua mulher pensa que é um pato
Se esgoelando porque vai para o prato
E só assim você percebe que só assim entende
Que o que tem debaixo do sovaco
É corpo de gente.

Mesmo assim joga na panela o bicho e sua moela
Que grita que tem muitas vidas e essa é uma delas
E tenta e pula e sacode e se tosta e se murcha
E se agarra e repara que a janela no beiral
Dá para a venda onde foi colocado no varal
E escapa e pula e mata e cata o dono da mercearia
E o leva lá pra beira da engordurada pia
E o enfia na panela e o deixa com as pernas de fora
E ele grita e implora e você simplesmente diz -Ora!-
E ele geme que não é gado e nem gato e nem capim
E você diz -Ora!- deixe homem de ser tão infeliz assim
Pois se comido vou ser um dia enquanto soa a melodia
Comido vai ser você agora - hoje chegou o seu dia!

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